À margem da Infarma Madrid 2026, o maior encontro europeu dedicado ao setor farmacêutico, Miguel Múrias Mauritti conversou com João Paulo Cabecinha, Administrador da Glintt Life Pharmacies Portugal, sobre as principais tendências que estão a transformar a farmácia comunitária, o impacto da Inteligência Artificial, os desafios da integração de dados e a evolução do mercado farmacêutico em Portugal e Espanha.
Numa análise abrangente ao momento atual do setor, João Paulo Cabecinha aborda ainda o papel crescente da tecnologia na eficiência operacional das farmácias, a importância do fator humano no aconselhamento aos utentes e a forma como a Glintt Global se está a posicionar para responder aos desafios dos próximos anos.
As principais tendências que marcam a farmácia ibérica
HealthNews (HN) – A Infarma é o grande barómetro do setor farmacêutico na Europa. Estando aqui com uma Glintt Global mais ibérica, que primeiras impressões retira desta edição e que sinais capta para os próximos meses em Portugal e Espanha?
João Paulo Cabecinha (JPC) – O setor é muito dinâmico e o reflexo é uma participação cada vez maior de expositores e visitantes, incluindo muitos portugueses — um sinal de grande vitalidade. Identificam-se duas grandes tendências: a tecnologia, visível em todas as atividades desenvolvidas no espaço farmácia, que apoia o farmacêutico e cada vez mais propostas para uma abordagem personalizada ao cliente em especial na área de suplementação e dermocosmética.
O posicionamento da Glintt Global no mercado espanhol
HN – A vossa presença em Madrid é também uma montra para o mercado espanhol. Como é que esta edição da Infarma está a consolidar a Glintt Global como um player tecnológico ibérico de referência?
JPC – Temos uma presença muito forte em Portugal e somos líderes destacados em Espanha. Expandimos a nossa intervenção do software de farmácia para uma oferta completa de serviços e equipamentos que permitem pensar e executar um projeto de farmácia em todas as suas dimensões. Um bom exemplo desta capacidade é o acordo que celebramos hoje com a BD Rowa que nos permite trabalhar em Espanha o portfolio de robots de farmácia desta empresa tal como já fazemos em Portugal há mais de 20 anos.
Tecnologia, eficiência e proximidade ao utente
HN – A eficiência tem sido central nos debates. Pelo que tem visto por aqui, como pode a tecnologia transformar a eficiência da farmácia comunitária portuguesa sem perder o foco no cuidado humano?
JPC – A tecnologia atua em duas dimensões: na eficiência operacional — garantindo a disponibilidade de produto, a eficiência da operação e o estabelecimento de múltiplos canais de comunicação com a farmácia — e no apoio técnico-científico ao farmacêutico, através de inteligência artificial, melhorando o aconselhamento promovendo a adesão terapêutica e a literacia em saúde e por consequência reduzindo o risco clínico. O objetivo é libertar o farmacêutico para ter mais tempo disponível na relação com o seu cliente. A empatia e a confiança são elementos fundamentais numa relação com um profissional e não podem ser substituídas pela tecnologia.

A importância dos dados na evolução da farmácia comunitária
HN – A integração e os dados clínicos são apostas para 2026. Nesta Infarma, sente que o mercado espanhol está mais maduro para a partilha de dados? E o que ainda falta em Portugal para um acompanhamento mais integrado?
JPC – Portugal está à frente. A farmácia portuguesa tem um papel interventivo no ecossistema de saúde — vacinação, testagem, rastreios — enquanto a espanhola ainda se centra fundamentalmente na dispensa do medicamento. O desafio em Portugal é garantir maior partilha de informação entre os diferentes profissionais de saúde. A tendência internacional aponta neste sentido procurando que os processos estejam centrados no cidadão e permitam que tenha acesso a melhores cuidados de proximidade e aqui a farmácia tem um papel fundamental. O que acontece agora em Portugal ocorrerá também em Espanha, com a implementação do espaço europeu de dados de saúde, uma diretiva com implementação obrigatória a partir de 2027.
Capital humano: um desafio para o setor farmacêutico
HN – Recentemente, lançaram com a Randstad um serviço de apoio às equipas nas farmácias. Qual tem sido o feedback aqui no evento? A gestão do capital humano é hoje tão estratégica quanto a tecnologia para garantir proximidade ao utente?
JPC – A escassez de recursos humanos qualificados afeta todos os setores, especialmente a saúde, com falta de enfermeiros, médicos e também de farmacêuticos comunitários. Com a Randstad, pretendemos dar mais visibilidade às oportunidades que existem para uma carreira na farmácia comunitária, que, com o alargamento dos serviços prestados à comunidade também aumenta a sua atratividade.
O impacto da Inteligência Artificial na farmácia
HN – A IA generativa tem sido tema nos corredores da Infarma. No terreno, onde é que ela vai fazer mais diferença já em 2026: gestão de stocks, atendimento ao balcão, ou há outra aplicação prática que esteja a despertar mais interesse no vosso stand?
JPC – Intervimos em todas as áreas. Na IA generativa, destacam-se duas vertentes: o apoio ao profissional — acesso rápido a informação técnico/científica, modelos de recomendação e gestão eficiente de stocks e da farmácia — e a relação com o cliente. Muitas pessoas interagem por telefone, e-mail ou redes sociais, e a farmácia tem dificuldade em responder. Podemos aplicar IA, tal como os bancos, para dar uma primeira resposta fiável e rápida, reservando o farmacêutico para interações pessoais de maior complexidade.
Inovação e crescimento da Glintt Global
HN – A inovação no setor farmacêutico exige, cada vez mais, capacidade de antecipação. Num mercado ibérico tão competitivo, como está a Glintt Global a preparar-se para sustentar o crescimento nos próximos anos, nomeadamente em novas áreas de negócio ou geografias?
JPC – A inovação não se esgota no nosso desenvolvimento interno. Aceleramos a nossa capacidade de servir os clientes integrando empresas com bons produtos e soluções em nichos específicos, bem como empresas com relação estabelecida em clientes relevantes. Procuramos tecnologia, relação com o cliente e, sobretudo, talento. Nos últimos cinco anos, temos crescido de forma estável em volume de negócio e pessoas. Atualmente, contamos com cerca de 1200 colaboradores em Portugal e Espanha, num ecossistema que totaliza 1400 pessoas.
Entrevista realizada por Miguel Múrias Mauritti na Infarma Madrid, em 26 de março de 2026.
Fonte: Healthnews


