Saúde Digital. A tecnologia ao serviço das pessoas

Hélder Freitas Silva é Strategy & Customer Success Director, na Glintt Life Hospitals, entidade que lidera a Agenda HfPT. A Agenda Health from Portugal (HfPT) nasce de um movimento coletivo de transformação do setor da saúde em Portugal.

Como é que tudo começou? Pode partilhar connosco como surgiu esta iniciativa?

A Agenda Health from Portugal (HfPT) nasceu em 2021 para responder de forma integrada aos grandes desafios do setor da saúde, tirando partido da transição digital e verde e da necessidade de reforçar a resiliência económica.
Este movimento foi dinamizado pelo Health Cluster Portugal e juntou hospitais, empresas tecnológicas, universidades e startups que reconheceram a urgência de inovar e de posicionar Portugal como referência global em saúde digital.

A iniciativa foi catalisada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que proporcionou o enquadramento e os recursos necessários para avançar com o projeto, acelerar a estratégia de internacionalização e de reforço da competitividade do setor.

Que necessidades do setor da saúde motivaram a sua criação?

Tal como hoje, o setor da saúde em Portugal enfrentava desafios estruturais, como a fragmentação dos sistemas, falta de interoperabilidade, pressão demográfica e necessidade de melhorar a experiência do Utente. A pandemia
evidenciou ainda mais a importância da digitalização, da integração de dados e da adoção de novas tecnologias, sem descurar a sustentabilidade financeira. Estes fatores motivaram a criação da Agenda HfPT, com o objetivo de responder às necessidades emergentes e preparar o país para o futuro da saúde.

“ A pandemia evidenciou ainda mais a importância da digitalização, da integração de dados e da adoção de novas tecnologias, sem descurar a sustentabilidade financeira. “

Quais são os grandes objetivos da Agenda?

Os grandes objetivos passam pela modernização dos serviços de saúde, internacionalização da tecnologia portuguesa e criação de valor para o utente e para o ecossistema, posicionando Portugal como referência em inovação digital na saúde. Pretende-se promover excelência clínica, eficiência operacional, sustentabilidade e competitividade internacional, através de soluções tecnológicas avançadas e da colaboração entre os diversos atores do setor.

Como é que esta proposta pretende modernizar e internacionalizar a tecnologia portuguesa na área da saúde?

A Agenda HfPT aposta na criação de produtos, serviços e processos inovadores, com potencial de exportação e integração em redes globais. O foco está na digitalização dos cuidados, interoperabilidade, inteligência artificial, telemedicina e modelos de gestão baseados em valor. Ao promover a colaboração entre empresas, hospitais e centros de investigação, o projeto impulsiona a internacionalização da tecnologia portuguesa, atraindo investimento e estabelecendo parcerias estratégicas.

Esta colaboração cria massa crítica e escala, fatores essenciais para competir em mercados internacionais. Ao integrar competências de diferentes players – desde start-ups a maiores empresas tecnológicas – conseguimos desenvolver soluções interoperáveis, alinhadas com padrões globais. Isso aumenta a capacidade de exportação e facilita a entrada em ecossistemas internacionais que exigem conformidade e integração.
Além disso, a cooperação entre empresas tecnológicas, academia e prestadores de cuidados permite acelerar a inovação e validar soluções em ambientes clínicos reais, conferindo credibilidade e provas de conceito que são valorizadas nos mercados externos. Este é um projeto de uma escala impressionante.

Pode elucidar-nos sobre a dimensão do consórcio? Quantas entidades estão envolvidas, que tipo de organizações participam e quem assume a liderança?

O consórcio HfPT é composto por 87 entidades do setor da saúde, das ciências da vida e das tecnologias de informação, incluindo hospitais, empresas tecnológicas, universidades, centros de investigação e startups. Esta pluralidade garante uma abordagem multidisciplinar e complementar, essencial para enfrentar os desafios complexos do setor.
A liderança do consórcio é assumida pela Glintt Life, que coordena as atividades e assegura o alinhamento estratégico entre os parceiros.

Com tanta pluralidade e tantos parceiros, o que destaca como maior benefício ou vantagem para a Agenda?

A maior vantagem da pluralidade reside na capacidade de inovação colaborativa, na partilha de conhecimento e na aceleração dos resultados. A diversidade de competências e experiências permite desenvolver soluções mais robustas, adaptadas às necessidades reais do setor, e criar sinergias que potenciam o impacto nacional e internacional da Agenda.

Que principais desafios têm enfrentado na implementação da Agenda e como têm sido superados?

Os principais desafios incluem a gestão da diversidade de parceiros, o alinhamento estratégico, a adaptação às exigências regulatórias e a integração tecnológica entre os produtos, serviços e sistemas desenvolvidos. Para que sobressaiam as sinergias entre parceiros tão diversos, é necessária uma governança robusta com definição clara de objetivos. Os obstáculos têm sido superados através de uma comunicação transparente e adoção de metodologias que permitem ajustar rapidamente a estratégia e garantir o cumprimento dos prazos de execução.

Sendo uma Agenda maioritariamente direcionada para o desenvolvimento de soluções tecnológicas, qual o papel das organizações neste tipo de projetos?

Cada organização desempenha um papel fundamental, desde a identificação de necessidades clínicas até ao desenvolvimento, testagem, validação e implementação das soluções. Os hospitais contribuem com conhecimento prático, clínico e acesso ao contexto real dos cuidados; as empresas tecnológicas trazem inovação e capacidade de desenvolvimento; as universidades e centros de investigação garantem rigor científico e formação de talento; enquanto startups introduzem agilidade e novas abordagens.

Qual é o montante global envolvido e que papel tem este investimento para os membros do consórcio?

O montante global envolvido é significativo, refletindo a ambição e a escala do projeto. No total, a Agenda HfPT prevê um investimento de 92M€ estando aprovados 71M€ de financiamento. Este investimento é crucial para impulsionar a inovação, financiar o desenvolvimento de novas soluções, apoiar a internacionalização e garantir a sustentabilidade dos resultados. Para os membros do consórcio, representa uma oportunidade única de crescimento, capacitação e posicionamento estratégico no mercado global.

Estamos a entrar na reta final dos projetos financiados pelo PRR. Qual é a data prevista para conclusão da Agenda HfPT?

A conclusão da Agenda HfPT está prevista para junho de 2026, alinhada com os prazos definidos pelo PRR. O consórcio mantém o compromisso com a entrega dos resultados e com a sustentabilidade das soluções desenvolvidas, garantindo que o impacto perdure para além do período de financiamento.

Que impacto se espera gerar para o cidadão e para o ecossistema de saúde?

Espera-se gerar um impacto profundo, traduzido em melhor acesso aos cuidados de saúde, maior qualidade e personalização dos serviços, eficiência operacional, sustentabilidade financeira e valorização do talento nacional. Para o ecossistema, a Agenda HfPT representa uma oportunidade de transformação, posicionando Portugal como referência em saúde digital, promovendo a competitividade e visibilidade internacional.

Como está estruturada a Agenda e quais são as suas áreas-chave, e o que se pretende alcançar em cada uma?

A Agenda HfPT foi concebida para transformar o ecossistema da saúde em Portugal, através de uma abordagem integrada e colaborativa.
Está organizada em 6 eixos estratégicos – 4 verticais e 2 horizontais – que cobrem toda a cadeia de valor, desde a inovação tecnológica até à promoção internacional:

  1. Smart Health Solutions – Soluções digitais para modelos centrados no doente, com ganhos de eficiência e qualidade.
  2. Health Portugal Data Space – Repositório nacional de dados de saúde para investigação e inovação.
  3. Clinical Studies – Capacitação das entidades nacionais para estudos e ensaios clínicos, para investigação clínica;
  4. Value4Health Solutions – Implementação de frameworks e tecnologias para medir resultados e custos, promovendo modelos de cuidados e financiamento baseados em valor.
  5. Health Business Portugal – Plataforma de articulação entre empresas e entidades científicas, facilitando o desenvolvimento e a articulação de novos produtos e serviços;
  6. Health Portugal Promotion – Promoção da oferta nacional de saúde através da marca “Health Portugal”, reforçando a presença no panorama nacional e internacional.
    No total, integram 18 Work Packages e 107 produtos e serviços, refletindo a ambição de posicionar Portugal como referência em saúde digital, inovação e valor.

Está previsto o desenvolvimento de cerca 107 novos produtos, serviços ou processos. Que tipo de resultados esperam alcançar? Sejam eles: clínicos, económicos, sociais?

Os resultados esperados abrangem as diferentes dimensões, passo a explicar:

  • Clínicos: melhoria dos resultados em saúde, maior precisão no diagnóstico, personalização dos cuidados e redução de eventos adversos.
  • Económicos: aumento da eficiência, redução de custos e criação de novas oportunidades de negócio.
  • Sociais: maior inclusão digital, acesso equitativo aos cuidados, promoção da literacia em saúde e valorização do talento nacional.

Como é que a Agenda está a ajudar a posicionar Portugal como um país data-driven e com ecossistema digital seguro?

A Agenda aposta na digitalização dos processos, na interoperabilidade dos sistemas e na adoção de padrões internacionais de segurança e privacidade. O desenvolvimento de plataformas integradas e a utilização de dados em tempo real permitem posicionar Portugal como país data-driven, capaz de tomar decisões informadas e de garantir um ecossistema digital seguro e confiável.

Esta evolução pode ajudar a concretizar o conceito de value based healthcare?
Como é que se mede e gera valor para o sistema?

Sim, a evolução digital é fundamental para concretizar o conceito de value-based healthcare, que se baseia na medição de resultados e na geração de valor para o cidadão e para o sistema. Estamos a construir uma arquitetura digital que não só suporta a medição rigorosa de resultados, mas também cria condições para modelos de negócio orientados ao valor, garantindo sustentabilidade e impacto real para o cidadão. Este é o caminho para um sistema mais eficiente, resiliente e competitivo.

De que forma este conceito foi incorporado na Agenda?

A Agenda HfPT incorpora este conceito através do desenvolvimento de ferramentas de monitorização, análise de dados e avaliação de impacto, aos níveis clínicos, económicos e sociais. Ao permitir a monitorização de dados em tempo real, é possível ajustar as estratégias para maximizar o valor gerado.

O que mais o entusiasma neste projeto?

O que mais me entusiasma é a capacidade de inovar o setor da saúde e com impacto real na vida dos cidadãos. A Agenda representa uma oportunidade única de posicionar Portugal na vanguarda internacional, valorizando o talento nacional e criando soluções transformadoras e colaborativas.

E o futuro da saúde no nosso país? Se olharmos para 2030, como imagina o ecossistema de saúde em Portugal?

Imagino um ecossistema integrado, digital, centrado no cidadão, com cuidados personalizados, acesso equitativo e eficiência operacional. Acredito que Portugal tem potencial para ser uma referência em inovação, exportação de tecnologia e atração de talento, com um sistema de saúde sustentável e resiliente.

E para lá chegar, que pilares precisam de estar assegurados para que esta transformação seja sustentável e com impacto duradouro?

Para conseguirmos uma transformação sustentável e duradoura, considero que os pilares fundamentais são: o investimento contínuo em inovação e formação de talento; uma governança robusta e colaborativa entre setores; a adoção de padrões internacionais de qualidade e segurança; o foco na inclusão digital e na literacia em saúde; e a avaliação permanente de resultados e adaptação das estratégias.

Como pode evoluir a colaboração entre tecnologia e cuidados de saúde para desenhar o futuro da saúde em Portugal?

Acredito que será cada vez mais próxima e estratégica. Vamos assistir à consolidação de equipas multidisciplinares, à integração de dados clínicos e administrativos, ao uso intensivo de inteligência artificial e à expansão de modelos de cuidados remotos. Mas nada disto será possível sem confiança, partilha de conhecimento e capacidade de adaptação.

O futuro da saúde em Portugal será construído com base nestes princípios, assumindo-se que o cidadão será sempre a prioridade e o foco das decisões.

É esta visão que orienta o nosso trabalho na Glintt Life Hospitals e no consórcio HfPT: transformar dados em valor, tecnologia em cuidados, e inovação em saúde para todos.

Fonte: Hospitalidade – Saúde Digital, A tecnologia ao serviço das pessoas Edição de outubro-dezembro 2025

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